DIZ-LE QUE LHE MANDO UM BEIJO
Custa-me admitir que uma história tão triste e tão pesada possa ser a história de um dos meus filmes preferidos. Mas é. Não o será, decerto, por se passar no Porto, essa Ribeira do Porto de 1999 que não vivi, num Porto empobrecido e escuro, onde reinavam, segundo o filme, a exploração de trabalho infantil, os acidentes em fábricas, a prostituição, as casas de aborto ilegal, e uma infinita precariedade laboral. Nesse duro contexto, seria falso invocar uma qualquer nostalgia pelos sinos da sé, pelo sotaque do Jaime, de treze anos, a contar escudos, pela liberdade descontrolada que lhe permitia passear sozinho à noite e baloiçar de mãos no ar na alta balaustrada do paço da Sé, e atravessar a praça da Ribeira vazia e sem turistas, sem esplanadas, mas com umas bancas decrépitas da Olá, umas portinholas que chiavam, um talho imundo, e casas a cair de podres. Mas se não é a familiaridade com esta cidade que ...


