DIZ-LE QUE LHE MANDO UM BEIJO
Custa-me admitir que uma história tão triste e tão pesada possa ser a história de um dos meus filmes preferidos. Mas é.
Não o será, decerto, por se passar no Porto, essa Ribeira do Porto de 1999 que não vivi, num Porto empobrecido e escuro, onde reinavam, segundo o filme, a exploração de trabalho infantil, os acidentes em fábricas, a prostituição, as casas de aborto ilegal, e uma infinita precariedade laboral.
Nesse duro contexto, seria falso invocar uma qualquer nostalgia pelos sinos da sé, pelo sotaque do Jaime, de treze anos, a contar escudos, pela liberdade descontrolada que lhe permitia passear sozinho à noite e baloiçar de mãos no ar na alta balaustrada do paço da Sé, e atravessar a praça da Ribeira vazia e sem turistas, sem esplanadas, mas com umas bancas decrépitas da Olá, umas portinholas que chiavam, um talho imundo, e casas a cair de podres.
Mas se não é a familiaridade com esta cidade que justifica o gosto que tenho pelo filme, talvez seja a força e convicção de Jaime, que ainda caracteriza as gentes da cidade, se as virmos para além da realidade entorpecida e cor-de-rosa dos filtros do Instagram.
Será, porque não passou assim tanto tempo. Jaime atravessa as ruas com vigor, em passo firme, empregando o sotaque mais à Porto que ouvi na história do cinema, e sem pedir desculpa por nada nem a ninguém.
Dir-se-ia que o trabalho que presta às escondidas da mãe, a astúcia com que foge às perguntas difíceis, oculta informação e consegue sempre saber o que quer (como quando vê um rapaz a dormir na aula, o agarra no recreio pelos colarinhos, e lhe pergunta – “há lugar para mim, lá no teu trabalho?” Diz lá, para eu não contar nada à stora, que tu com a tua idade não podes trabalhar), a forma como riposta – “sei bem o que isso é, tu não me enganas” -, e como anda sem ilusões, e até já sem escrúpulos, ciente de que a vida é difícil e não há tempo para contemplações, não são características próprias de um miúdo de treze anos.
Mas o filme é delicioso – apesar de tudo, tudo -, pelos breves momentos em que por trás do sotaque e da determinação de Jaime se consegue ver o que ainda resta de ingenuidade e de um amor muito grande pela família. Convencido de que o pai não estaria desempregado se não lhe tivesse sido roubada a mota, passa todos os dias por uma garagem, e todos os dias pede ao dono que a reserve e ponha nela o letreiro “vendido”, que está quase a ter dinheiro para a comprar (por isso é que trabalha), e na tentativa vã de reconciliar os seus pais separados, diz ao pai, sobre a mãe:
- “Está boa; manda-te um beijo”. E o pai, espantado: – “Manda-me o quê?”, “Manda-te um beijo, foi o que ela disse”, enquanto coça a parte de trás do ouvido, muito sério, e o sobrolho franzido; “A sério, ela disse-me assim, - diz-le que lhe mando um beijo; foi o que ela disse; diz ao teu pai que lhe mando um beijo, foi o que ela disse”. “Disse, juro”, tentando soar convincente, como se o facto de repetir várias vezes a mesma frase, sem interrupções, fosse suficiente para a tornar verdadeira.
O filme Jaime é muito triste, e nunca poderei explicar suficientemente bem porque gosto tanto dele, mas já consigo, sem dificuldade, dizer o quanto me enternece e o quanto admiro a personagem que lhe dá o nome.
Comentários
Enviar um comentário