BOLA DE SABÃO


    Cântico Negro, de José Régio. Era um dos poemas preferidos do Avô, e também o meu, tantas vezes me ouço a pensar “só sei que não vou por aí”, que surge como um eco de consciência que parece nascer profundamente em mim, mas que, mais forte que eu, de mim se irrompe e projeta com força para fora, como uma bola de sabão que rebenta ou um furacão que explode, como um grito abafado que só eu ouço, mas que depois me abandona, devagarinho, se despede de mim e vai noutra direção, de novo me deixando na dúvida. Lá vai ela, a certeza, a força, que a mim há-de voltar, em ondas, mais outra vez, a propósito do mesmo assunto. Não sei de onde vem esta intuição que se impõe com tanta certeza, e finge nascer de dentro, para depressa me lembrar que é mais do que eu. Pergunto-me em que circunstâncias terá o avô lido o poema, que decisões tomou ao compasso de Régio, que recomendações sensatas não seguiu; e que ponderações semelhantes teremos feito, embalados pelo som furtivo e determinado destes versos. Se o avô cá estivesse, seria a voz que me diz para ir por aqui, ou é, agora, esse meu eco que se insinua através do poema e me impõe que não vá por ali? Se é o avô o meu eco, quem era o eco do avô? E estão juntos agora, o eco do avô e o meu?

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