Até ao fim da procissão

 

    O Miguel Araújo tem uma música muito engraçada sobre a alegria do dia da procissão, em que repete este refrão: “se a América se lembrar / de carregar no tal botão / que o mundo dure ao menos até ao fim / do dia da procissão”. E eu, antes ainda mal acordada, guardei os phones na sua caixinha, sorridente e com uma vontade mal contida de dançar depois de ouvir a música sobre concertinas e tambores, saias rodadas, reencontros de família, e sarabandas do capelão, e saí porta fora ainda não eram sete da manhã para fazer parte da minha/nossa procissão. E concluí duas coisas: primeiro, que não é possível agradecer devidamente a Miguel Araújo a alegria da sua música que entra na nossa vida; e segundo, que a alegria e a procissão de que fala o refrão são assuntos tão ou mais sérios do que os assuntos que normalmente tratamos como sérios. 
    E lembrei-me também de Jorge Luís Borges que em Os Justos descreve as pessoas que sem nós sabermos estão a salvar o mundo: as que cultivam o seu jardim, as que agradecem que na terra haja música, as que premeditam com cerâmica uma cor e uma forma, as que compõem uma página de um livro e as que leem os tercetos finais de certo canto. No fundo, salvam o mundo todos os que calma e melodiosamente lhe conferem mais beleza e alegria. 
    Não tenho dúvidas de que o cortejo dos trajes de papel em homenagem a São Bartolomeu, que todos os anos é composto por grupos de centenas de figurantes vestidos em trajes de papel dos pés à cabeça - brincos de papel, chapéus em papel, flores em papel, guitarras clássicas em papel, e este ano até telefones e táxis em papel - faz parte da lista de Jorge Luís Borges. O cortejo sai da Cantareira no último domingo de agosto, e vai Passeio Alegre adiante, cheio de cor e em representação de um tema local ou nacional a que se subordinam todos os trajes, sempre acompanhado pela banda marcial da foz, a mais antiga, a banda dos bombeiros voluntários, a batucada, etc. - até à praia do Ourigo, onde um a um os donos das vestes as mergulham no mar, e as entregam a São Bartolomeu, que encarnado na água, e agradecido por tanta cor e festa, liberta os trajantes da doença e de todos os outros males. À volta do cortejo, fileiras e fileiras de família, amigos, vizinhos e turistas, apreciam os fatos e vibram de entusiasmo antecipado pelo mergulho final que enche de cor as águas do mar. 
    Se temos esta festa desde os anos 20-30 do século passado, devemo-lo em muito aos que a iniciaram, em particular, ao banheiro Costa Padeiro, e aos que a foram recuperando depois de diversos interregnos, como Joaquim Picarote e a Academia de Danças e Cantares do Norte de Portugal (ADCNP), aos patrocínios que dantes se conseguiam em peditórios, e a todos os que fazem os fatos. Ainda há quem se lembre do tempo em que os fatos de papel eram feitos à mão, pela noite dentro, pelas avós e mães, mais as crianças que ajudavam a cortavam cortar as bordinhas do papel de bolo com buracos com que se fazia a renda das saias dos vestidos. Em 1980, o cortejo passou a ficar a cargo da juntas de freguesia, com equipas de designers que a partir de janeiro se dedicam à terra árdua de desenhar e de costurar amorosamente centenas de vestidos e trajes. Sei que São Bartolomeu gostou muito das roupas deste ano, e o meu, desenhado por Joana Bourbon, não podia ter mais cores e espantava qualquer problema!
    Em agosto de 1980, o "Progresso da Foz" escreveu: "dos trajos que foram criados com tanto carinho, engenho e trabalho, apenas ficaram sobre as águas pedaços de papel que, lentamente, se foram desfazendo." Se a beleza e a alegria não fossem uma coisa muito séria seria uma pena perder assim tantos fatos, mas como a alegria e a beleza superam a utilidade das coisas, e porque um minuto de beleza é útil por si só, eu sei que vale a pena!

(Nota: encontrei algumas curiosidades sobre o desfile na obra de Marisa Santos, “Silêncio...A Foz vai doirando lentamente...Território, Devoção e Práticas Culturais da Foz do Douro”, cuja leitura recomendo). 






















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